segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Fome


O café da manhã me deixa mais aceso
quando é você que vem me acordar.
Meu apetite fica maior para o almoço
quando você escapa e vem me encontrar.

Hoje à tarde, se chover,
quero comer um sonho com você.
E pro jantar vou preparar
algo apimentado e te surpreender.

Sei que com tudo isso
vai ficar difícil emagrecer.
Mas antes de dormir
hoje ainda vou beliscar
você.

Ideia


Vem de "êidos",
"imagem" em grego.
E não de "id"
que é "isto" em latim.
Mas poderia vir de "ídios",
já que ela depende só de mim.

Ela existe sem ser vista, falada ou ouvida
Só não pode ser olvidada;
por isso, convém ser escrita.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Grego

O rio já não é o mesmo
Eu já não sou o mesmo
e quando olho para meu passado
rio de mim mesmo.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Minha garota não curte os Coen (um draminha hype)



Minha garota não curte irmãos Coen.

Hitchcock a gente vê juntinho
desde nosso primeiro mês
Mas seja forte ou seja fraco
Coen com ela não tem vez

Tarantino ela até encara.
Woody Allen topa na hora.
Mas se ponho a fita de Fargo
ela acho chato e vai embora

Minha namorada, além de bonita
tem bom gosto e é esperta
Mas ela não gosta dos Coen
nem com Clooney na Odisseia

Ela não gosta do Lebowski
nem de Scarlet como lolita
Para ela são todos do nível
de Matadores de Velhinha.

Não me conformo que ela não veja como a obra desses americanos expõe de forma crua os sentimentos mais sujos que regem os atos masculinos.
Em Queime depois de ler, Bravura Indômita, O homem que não estava lá
Somos idiotas, competitivos, mesquinhos.

...

Pensando bem, até dá pra entender
seu desinteresse pelos irmãos Coen:
Sendo mulher, ela não precisa de filme
pra saber o ridículo que é um homem.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Diálogo


"- Chico é uma unanimidade.
- Nelson Rodrigues diz que toda unanimidade é burra.
...
- Bom, Nelson Rodrigues não é uma unanimidade."

domingo, 22 de julho de 2012

Sobre confissões por escrito

Acredito que se a alfabetização fosse melhor difundida haveria menos hipocrisia.
É mais fácil confessar algo de que se tem vergonha pela escrita do que por qualquer outra forma. Quando se fala a alguém pessoalmente, tem-se que encarar o interlocutor ao mesmo tempo em que se bola a mensagem. É fácil mudar de ideia a partir do ponto em que se percebe a cara feia do outro. Sem falar de quando ele, para te poupar do constrangimento de dizer o que pensa, interrompe antes.
Haveria os gravadores, as câmeras, você pode dizer... Mas algo que percebi nesses tempos em que tais objetos se banalizaram é que eles são incômodos. Falar para um gravador, é como falar com a versão mais crítica de você mesmo. É preciso ficar atento não só para o que se fala, mas para como se fala, a entonação, os gestos. E quem já ouviu a própria voz gravada sabe: não é daquele jeito que gostaríamos de soar.
Mas na escrita, há só as palavras e silêncio. E é um ato solitário, necessariamente - o que significa que você pode lapidar o que diz até restar o que sinceramente quis dizer.
Por isso acredito: as pessoas poderiam agir mais conforme pensam se pudessem escrever o que pensam. O que se fala, fala-se para alguém; mas o que se escreve sempre é uma confissão.

sábado, 7 de julho de 2012

Os russos e nós


Os russos têm mais a ver com nós, brasileiros, do que o senso comum pode a princípio desconfiar. Não obstante a marcante diferença climática, há alguns traços que aproximam intimamente estes dois lados do mundo; entre eles, a religiosidade e a desigualdade social.
Pode se notar isso em obras como os contos de Tchekhov, em que é retratada a vida nos mujiques (servos) na área rural do grande país, ou na profunda fé das mulheres de "Crime e Castigo", de Dostoiévski.
Talvez o sentimento de identidade que sinto tenha a ver com a conhecida máxima atribuída a um dos maiores escritores russos, Liev Tolstoi: "Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia."

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Déjà vu


Jorge Luis Borges, em uma das infinitas vezes que comentou a teoria do tempo cíclico, menciona que os defensores desta teoria veem o déjà vu como uma confirmação do eterno retorno. Tratar-se-ia de uma lembrança fugaz de outro ciclo temporal.
Já no filme Matrix o déjà vu figura como uma falha (vale dizer, um bug) no programa de realidade virtual em que as máquinas mantém a humanidade. Neste caso, é claro, não se trata de uma explicação séria sobre a questão, mas tão somente uma eficiente brincadeira. Grande parte da graça do filme dos irmãos Wachomski vem de questionar se os espectadores também não estariam vivendo em um mundo de mentira; o que pode servir como metáfora para muita coisa.
De minha parte, há muito tempo formulei uma hipótese que explicaria os déjà vus, e de lá para cá ainda não conheci motivos para desacreditá-la. É a seguinte:

Na medida em que conhecemos o mundo criamos a realidade - ou nossa percepção da realidade, o que dá no mesmo. Como um vídeo registra e sincroniza imagens e sons, nós também o fazemos. Mas além de imagens e sons registramos também cheiros, dores, a força gravitacional, e até um devaneio.
O tempo, que também é percebido e registrado, nos serve de guia para todos estes dados. É verdade que em regra não puxamos nada da memória pelo horário ou dia em que ela ocorreu, mas no mínimo sabemos o que "aconteceu" no passado e o que "está acontecendo" agora.
Pois bem; tenho a convicção de que o déjà vu nada mais é do que uma percepção errada que temos do tempo. Da mesma forma que podemos ver um manequim e pensar ser uma pessoa, ou ouvir "bode" quando foi dito "bote", o cérebro pode falhar ao datar um momento do presente, dando a impressão de que já foi visto antes.
Esta sempre me pareceu uma explicação razoável. No entanto, quando comento sobre ela com os que têm a bondade de me escutar normalmente não encontro respaldo. Talvez seja porque ao invés de considerar o déjà vu um fenômeno físico, externo, eu o coloco como um pequeno defeito do mecanismo cerebral, e ninguém aprecia vislumbrar uma demência em potencial - a desorientação temporal é um sintoma recorrente em doenças psiquiátricas. Ou talvez a rejeição ocorra porque o déjà vu ainda é uma daquelas coisas raras e maravilhosas que a condição humana nos reserva, como a chuva e o fogo já foram um dia, e não vale a pena explicá-lo.
Mas como a dúvida também é humana, sempre que tenho essa sensação de já ter vivido aquela cena antes eu me armo de atenção e especial cuidado. A humanidade não sobreviveu a milhares de anos ignorando preságios.

domingo, 4 de março de 2012

Cruzadas

A descoberta é a melhor fonte de diversão. Por isso as crianças gostam muito de brinquedos, e por isso enjoam logo deles. E às vezes as descobertas parecem que vão ficando escassas, ou desinteressantes. Mas um tipo de descoberta não tem hora para acontecer e que me deixa sempre satisfeito é o entendimento de uma nova palavra. Mas só vale depois que você consegue usá-la!

Há uns dois anos descobri o que quer dizer “idiossincrático”. A princípio pensei que não ia usar muito a palavra, e que logo esqueceria seu significado. Mas surpreendentemente percebi que o que mais existia no mundo eram idiossincrasias – afinal, ninguém é igual a ninguém, e de perto ninguém é normal. Hoje me sinto senhor sobre este termo e o guardo como um selo de uma coleção que de vez em quando mostro para os amigos.

Quando o dinheiro acabar, ou quando chegar a um ponto da vida em que objetos não tragam alegria, sempre haverá a descoberta. E a descoberta de palavras é praticamente inesgotável. Caso fique difícil se surpreender na língua pátria, existem as outras. E caso se vá um pouco mais longe – para a etimologia, a história das palavras – aí que o desbravamento não terá fim mesmo.

E é por isso que prefiro palavras cruzadas a sudoku.