quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Sobre Mutantes
O grupo dos irmãos Batista foi diferente de tudo o que havia até então. As coisas que vieram posteriormente que remetiam a eles jamais tiveram a mesma força, muito menos a mesma criatividade.
A inventividade no uso dos instrumentos elétricos e a ousadia de serem mais do que uma banda de rock os levou a mesclarem o rolling stonianismo com ritmos típicos do folclore do nordestino.
Além disso, os brasileiros podem sentir-se privilegiados, pois a música dos Mutantes é em português, e para brasileiro. Ainda que grandes nomes da música pop internacional os citem como referência, somente sendo brasileiro para captar completamente os coloquialismos, o deboche e a criatividade das letras do grupo.
Importante frisar também que toda esta novidade, o visual amalucado, a guitarra distorcida tocando baião, tudo encaixou-se perfeitamente com o tempo em que foi feito. Por isso, tentar repetir os Mutantes é besteira. Nosso tempo ainda precisa produzir artistas que captem tudo o que ele tem a oferecer e o subverta. Não nos cabe mais subverter os valores dos anos 70.
sábado, 14 de novembro de 2009
Paulo Ricardo, o crítico
Segundo o texto, Paulo Ricardo passou quatro anos “trabalhando como jornalista e crítico” (boa parte do texto é sobre o próprio autor, egocêntrico contumaz). Dá para ver o motivo de ele ter deixado tal ofício.
O roqueiro bate fácil a marca de um lugar comum por parágrafo. Um texto fraco, fraco, cuja publicação nem mesmo o fato de Paulo Ricardo ser uma “celebridade” justifica.
Alguns exemplos de breguice literária encontrados no texto:
- “Michael Jackson juntou-se a James Brown no grande Apollo dos céus”.
- “Impossível falar de Jacko sem lamentar o bizarro “freak show” em que se deixou envolver” [“bizarro freak show” é um exemplo que deveria ser utilizado nos livros escolares para pleonasmo].
- “Mea culpa, mea maxima culpa!”, clamou Paulo Ricardo, pedindo perdão pelas palavras desditosas que tinha antes lançado contra o “Ninjinski pop”, que no filme cantava “como sereia”.
- Chega até a resumir Michael Jackson ao famigerado título de “o Cara”. Mas não antes de nos explicar que sua personalidade era a de “um verdadeiro leonino”.
Esta crítica publicada, se por um lado expõe o ridículo do ex-galã decadente, que um tempo atrás estava dando aula de “História do Rock´n Roll” para socialites em uma pós-graduação (com aval da USP), por outro me dá esperanças de um dia ter um texto meu também nas páginas do jornal. Pelo jeito o critério não anda tão alto.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Lula 3 - A Salvação
Se o Brasil fosse uma obra de ficção, e se eu fosse o autor, alguém muito ruim seria o vencedor das próximas eleições.
Não que eu queira o mal do país, mas reviravoltas, decepções e afrontas seriam mais interessantes do que simplesmente ver o castelinho de Lula - que já não tem uma estrutura muito firme - ruir lentamente, pedra por pedra.
Lula criou uma imagem no ideário popular, não há como se negar. E não foi fácil fazê-lo. Deveu-se a um processo que começou com ele metalúrgico, fundando o PT, falando grosso e firme (hoje continua falando grosso, mas com muito mais manha). Teve sua vida privada exposta em um debate político. Foi abrilhantada pelo fato de o mauricinho que o venceu nas urnas ter sido expulso do poder. Em seguida, perdeu novamente. Desta vez para um acadêmico que, devido a uma política econômica liberal além da conta (e também ao contexto da economia mundial, é verdade), terminou seus dois mandados com o país com medo do desemprego.
Após tantas derrotas, Lula viu-se como tendo percorrido o "caminho do herói". Tornou-se menos rústico; mais palatável ao gosto do grande público. Este, vendo-o novamente tentar eleger-se, decidiu que já era hora. E a hora foi bem aproveitada.
A larga aprovação do Governo Lula é, também, uma aprovação do brasileiro sobre si mesmo. O patrício afirma que o governo vai bem porque o país vai bem. E o país vai bem, do ponto de vista deste brasileiro, porque afinal de contas sua vida vai bem. Não ótimo, não uma Holanda, mas vai bem, como um domingo em que não se viaja para a praia, mas também não se trabalha.
Se o país fosse uma obra de ficção, seria hora de se quebrar este status quo, que tem cara de fim de filme. Se o vencedor for um mero sucessor menor de Lula, certamente os problemas vão ser sentidos mais do que os ganhos (quem terá a cara limpa o suficiente para dizer "eu não sabia de nada" e sair de bem com a opinião pública?). O domingo irá se acabando, e ainda que o Brasil não mude tanto, a percepção do brasileiro irá mudar. E haverá insatisfação.
Já se ganhar alguém que inicie um governo entreguista, enchendo as estradas de pedágios, reduzindo os benefícios sociais a bem dos lucros dos empresários (Serra), ou ainda alguém que nas eleições faça cara de bonzinho, de Lula melhorado, para revelar-se nada mais do que o presidente mais corrupto da história, a ponto de a corrupção afetar a economia (Ciro)... Aí então se fará o cenário necessário para o retorno triunfal de Lula, feito Rock Balboa. Ou, quem sabe, de algum Che Guevara do século XXI.
Pode ser que Lula também veja a derrota do PT em 2010 como necessária para a manutenção do seu plano de poder. Necessária, até, para que o nome de Luís Inácio possa entrar para história com uma grandiosidade maior. Lula é vaidoso: ninguém chega a Presidente da República sem este atributo.
Talvez por isso tenha escolhido a dedo uma candidata tão tecnicamente, objetivamente, correta; e tão pouco elegível.