quarta-feira, 2 de maio de 2012

Déjà vu


Jorge Luis Borges, em uma das infinitas vezes que comentou a teoria do tempo cíclico, menciona que os defensores desta teoria veem o déjà vu como uma confirmação do eterno retorno. Tratar-se-ia de uma lembrança fugaz de outro ciclo temporal.
Já no filme Matrix o déjà vu figura como uma falha (vale dizer, um bug) no programa de realidade virtual em que as máquinas mantém a humanidade. Neste caso, é claro, não se trata de uma explicação séria sobre a questão, mas tão somente uma eficiente brincadeira. Grande parte da graça do filme dos irmãos Wachomski vem de questionar se os espectadores também não estariam vivendo em um mundo de mentira; o que pode servir como metáfora para muita coisa.
De minha parte, há muito tempo formulei uma hipótese que explicaria os déjà vus, e de lá para cá ainda não conheci motivos para desacreditá-la. É a seguinte:

Na medida em que conhecemos o mundo criamos a realidade - ou nossa percepção da realidade, o que dá no mesmo. Como um vídeo registra e sincroniza imagens e sons, nós também o fazemos. Mas além de imagens e sons registramos também cheiros, dores, a força gravitacional, e até um devaneio.
O tempo, que também é percebido e registrado, nos serve de guia para todos estes dados. É verdade que em regra não puxamos nada da memória pelo horário ou dia em que ela ocorreu, mas no mínimo sabemos o que "aconteceu" no passado e o que "está acontecendo" agora.
Pois bem; tenho a convicção de que o déjà vu nada mais é do que uma percepção errada que temos do tempo. Da mesma forma que podemos ver um manequim e pensar ser uma pessoa, ou ouvir "bode" quando foi dito "bote", o cérebro pode falhar ao datar um momento do presente, dando a impressão de que já foi visto antes.
Esta sempre me pareceu uma explicação razoável. No entanto, quando comento sobre ela com os que têm a bondade de me escutar normalmente não encontro respaldo. Talvez seja porque ao invés de considerar o déjà vu um fenômeno físico, externo, eu o coloco como um pequeno defeito do mecanismo cerebral, e ninguém aprecia vislumbrar uma demência em potencial - a desorientação temporal é um sintoma recorrente em doenças psiquiátricas. Ou talvez a rejeição ocorra porque o déjà vu ainda é uma daquelas coisas raras e maravilhosas que a condição humana nos reserva, como a chuva e o fogo já foram um dia, e não vale a pena explicá-lo.
Mas como a dúvida também é humana, sempre que tenho essa sensação de já ter vivido aquela cena antes eu me armo de atenção e especial cuidado. A humanidade não sobreviveu a milhares de anos ignorando preságios.

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