Jorge
Luis Borges, em uma das infinitas vezes que comentou a teoria do
tempo cíclico, menciona que os defensores desta teoria veem o déjà
vu
como uma confirmação do eterno retorno. Tratar-se-ia de uma
lembrança fugaz de outro ciclo temporal.
Já
no filme Matrix
o déjà
vu
figura como uma falha (vale dizer, um bug)
no programa de realidade virtual em que as máquinas mantém a
humanidade. Neste caso, é claro, não se trata de uma explicação
séria sobre a questão, mas tão somente uma eficiente brincadeira.
Grande parte da graça do filme dos irmãos Wachomski vem de
questionar se os espectadores também não estariam vivendo em um
mundo de mentira; o que pode servir como metáfora para muita coisa.
De
minha parte, há muito tempo formulei uma hipótese que explicaria os
déjà
vus,
e de lá para cá ainda não conheci motivos para desacreditá-la. É
a seguinte:
Na
medida em que conhecemos o mundo criamos a realidade - ou nossa
percepção da realidade, o que dá no mesmo. Como um vídeo registra
e sincroniza imagens e sons, nós também o fazemos. Mas além de
imagens e sons registramos também cheiros, dores, a força
gravitacional, e até um devaneio.
O
tempo, que também é percebido e registrado, nos serve de guia para
todos estes dados. É verdade que em regra não puxamos nada da
memória pelo horário ou dia em que ela ocorreu, mas no mínimo
sabemos o que "aconteceu" no passado e o que "está
acontecendo" agora.
Pois
bem; tenho a convicção de que o déjà
vu
nada mais é do que uma percepção errada que temos do tempo. Da
mesma forma que podemos ver um manequim e pensar ser uma pessoa, ou
ouvir "bode" quando foi dito "bote", o cérebro
pode falhar ao datar um momento do presente, dando a impressão de
que já foi visto antes.
Esta
sempre me pareceu uma explicação razoável. No entanto, quando
comento sobre ela com os que têm a bondade de me escutar normalmente
não encontro respaldo. Talvez seja porque ao invés de considerar o
déjà
vu
um fenômeno físico, externo, eu o coloco como um pequeno defeito do
mecanismo cerebral, e ninguém aprecia vislumbrar uma demência em
potencial - a desorientação temporal é um sintoma recorrente em
doenças psiquiátricas. Ou talvez a rejeição ocorra porque o déjà
vu
ainda é uma daquelas coisas raras e maravilhosas que a condição
humana nos reserva, como a chuva e o fogo já foram um dia, e não
vale a pena explicá-lo.
Mas
como a dúvida também é humana, sempre que tenho essa sensação de
já ter vivido aquela cena antes eu me armo de atenção e especial
cuidado. A humanidade não sobreviveu a milhares de anos ignorando
preságios.
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