segunda-feira, 26 de julho de 2010

Sobre A Metamorfose

A Metamorfose de Franz Kafka não é a história de um homem que acorda na forma de um inseto monstruoso. Nada pode estar tão distante da ficção científica ou do horror quanto esta novela.
A terrível transformação de Gregor Samsa é uma alegoria para todas condições inescapáveis a que os homens estão submetidos, e que podem levar à sua exclusão da sociedade. Samsa poderia ter despertado como homossexual, leproso, artista, comunista, albino; qualquer coisa, enfim, que levasse seus convivas a exilá-lo.
A realidade fantástica de Kafka torna sua obra atemporal. Gregor poderia ser judeu na década de 1930, aidético nos anos 1980, ou muçulmano nos anos 2000. Mas ao invés de situações limitadas, Kafka utilizou de uma hipótese absurda e, por isso mesmo, universal, pela qual descreveu a angústia da exclusão. Exclusão que existe desde que existe o conceito de grupo.
Esta pequena obra prima, portanto, tem como êxito a condensação em palavras de um dos mais perenes sentimentos humanos: a dor da rejeição. Aquele que a lê tem a oportunidade de identificá-la e reconhecê-la em sua própria realidade. Não são tantos os livros capazes de proporcionar experiência tão profunda.


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terça-feira, 13 de julho de 2010

Poema infantil

Injustiça da natureza
Ter nascido a mariposa
com feitio de borboleta.

No escuro são parecidas,
mas uma é colorida
e a outra é de cortiça.

Passeando o casalzinho
vê borboleta no caminho
ela ri, ele faz cara de bobo
abrançam-se forte e vão se casar.

A pobre mariposa se vem visitar
leva vassorada e é enxotada
que esse bicho feio na morada
é sinal de morte ou de azar!

É a sina da mariposa
que nasceu muito sem graça
ficar só, jogada às traças,

E sua prima preferida
tem a foto estampada
em vestido e em toalha.

A mariposa, no entanto,
se não tem muito encanto
procura ver pelo lado bom:

Se ninguém a quer em casa
pelo menos não é espetada
em quadro de coleçao.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Você, burguês...

"Enquanto houver burguesia não vai haver poesia." No ginásio a professora de história mostrava músicas de época para conhecermos o período da abertura política. Perguntei se ela acreditava no significado daquele verso. Respondeu-me como cabe às professoras marxistas de história do ginásio: que se com ela se entende que enquanto houver exploração de um homem pelo outro não haverá beleza no mundo, sim, ela está correta. A resposta me soou definitiva.
Cazuza, ninguém ignora, era um burguês. Melhor, era o avesso de um proletário. Não me recordo qualquer grande poeta que tivesse uma rotina maquinal de 44 horas semanais apertando parafusos ou apondo carimbos. Poetas sempre foram burgueses, nobres, acadêmicos ou, quando pobres, boêmios.
Além da ociosidade necessária para se fazer qualquer obra artística sincera, deve haver a possibilidade de estudar a arte. Neste ponto diferem a obra do boêmio burguês e do boêmio pobre. A boemia pode gerar um Cartola, um Jorge Ben. Mas a boemia burguesa gera o Orfeu da Conceição, gera Morte e vida severina.
Não intento ser proselitista. Minha finalidade é chamar os burgueses, os filhos de pais ricos, os vagabundos confortáveis, às artes, por favor. Se não quer trabalhar, não trabalhe! Todos deveriam ter esse direito. Mas aproveite a educação que recebeu e seja um bom artista. Pode ser que perca toda a fortuna no processo, mas quem precisa de dinheiro quando é poeta? Veja Cazuza! Melhor um poeta morto do que um dentista frustrado.

http://youtu.be/PjRJZl4_Ze4