domingo, 22 de julho de 2012

Sobre confissões por escrito

Acredito que se a alfabetização fosse melhor difundida haveria menos hipocrisia.
É mais fácil confessar algo de que se tem vergonha pela escrita do que por qualquer outra forma. Quando se fala a alguém pessoalmente, tem-se que encarar o interlocutor ao mesmo tempo em que se bola a mensagem. É fácil mudar de ideia a partir do ponto em que se percebe a cara feia do outro. Sem falar de quando ele, para te poupar do constrangimento de dizer o que pensa, interrompe antes.
Haveria os gravadores, as câmeras, você pode dizer... Mas algo que percebi nesses tempos em que tais objetos se banalizaram é que eles são incômodos. Falar para um gravador, é como falar com a versão mais crítica de você mesmo. É preciso ficar atento não só para o que se fala, mas para como se fala, a entonação, os gestos. E quem já ouviu a própria voz gravada sabe: não é daquele jeito que gostaríamos de soar.
Mas na escrita, há só as palavras e silêncio. E é um ato solitário, necessariamente - o que significa que você pode lapidar o que diz até restar o que sinceramente quis dizer.
Por isso acredito: as pessoas poderiam agir mais conforme pensam se pudessem escrever o que pensam. O que se fala, fala-se para alguém; mas o que se escreve sempre é uma confissão.

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