sábado, 14 de dezembro de 2013

O boxe nas letras

O que carrega mais sentimento: a união ou o conflito?

Pouca coisa é tão poética quanto um embate. E não posso pensar em um contexto em que um embate é posto de forma tão clara quanto em uma luta de boxe. Um homem (ou mulher - vide Menina de ouro) frente a outro; regras simples, objetivo simples.

Por isso mesmo o boxe tem tamanha recorrência na literatura. Neste esporte, o homem moderno, educado para conter seus ímpetos, agir segundo a razão, coloca-se em uma rara situação em que há igualdade e liberdade para combater. No boxe não há armas, não há hierarquia. Há só a força bruta, a habilidade e, principalmente, a vontade.

Tão estreita é a relação entre literatura e pugilismo que tornou-se lugar comum a metáfora de Julio Cortázar que compara o bom romance à vitória por pontos, enquanto o conto deve arrebatar o leitor por nocaute.

Alguns de meus contos preferidos, de meus escritores preferidos, dizem respeito a este tema. Ernest Hemingway (vide o excelente conto Cinquenta mil) e Rubem Fonseca (O desempenho, no livro Lúcia MacCartney) são exemplos de narradores do boxe no século XX. Há ainda Arthur Conan Doyle, em um contexto diferente: seus pugilistas são cavalheiros do século XIX. Mesmo quando são da classe operária, são cavalheiros.


Acabou de ser editada no Brasil uma coletânea chamada Nocaute, com cinco contos de boxe por Jack London. A se ver.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Poema inspirado por Jorge Luis Borges

Dizem que meu nome
não é William Shakespeare.
Só mais uma história
que contam sobre mim.
Outra é que sou calvo.
Outro é que sou bardo.
Outra é que sou bretão.
Você diria que algo é fato
e outro algo não?
Pois saiba que todo fato
uma vez que seja narrado
não passa de invenção.

domingo, 27 de outubro de 2013

Por quê escrever

O que é pior: expor o quão suas ideias são razas e erradas, ou deixar o mundo sem ter dito suas ideias razas e erradas?

domingo, 16 de junho de 2013

Duro de arrancar

Segundo o site www.geneanet.org, é a seguinte a origem do nome Raffard:

"Surtout porté dans le Loiret et l'Ardèche, c'est sans doute un nom de personne d'origine germanique, Rafhard (rafon = arracher + hard = dur). Variante : Rafard (19). Autre possibilité : surnom d'un homme moqueur (sens attesté en ancien français pour rafard et pour le verbe rafarder = railler). Enfin, en occitan, le mot rafar(d) a désigné un mulet âgé de plus de cinq ans, puis un vieux soldat ou un domestique."

Traduzindo mais ou menos, com auxílio da Internet, concluí o seguinte:

Concentrado nas regiões do Loiret e da Ardèche, trata-se provavelmente de um nome de origem germânica: Rafhard (rafon = "arrancar" + hard = "com força"). Variação: Rafard. Alternativamente, pode significar "zombeteiro" (significado proveniente do francês arcaico, aplicável para Rafard, decorrente do verbo rafarder = zombar, ralhar). Ainda, em Occitano (língua também chamada "provençal", falada no sul da França e na Espanha) a palavra rafar(d) significa "mula com mais de cinco anos" e, por extensão, "velho soldado", ou ainda um servo doméstico.

Resumindo, Rafard, que é variação de Raffard, pode significar "arrancar com força", "zombeteiro", "mula", "velho soldado" ou "servo". Dá até para escolher, de acordo com o contexto.

domingo, 9 de junho de 2013

Mantis, ou A tamarutaca

Tamarutaca é a lagosta boxeadora
que habita os mares da África oriental.
Embora suas cores sejam atraentes, cuidado:
travar contato poderá ser fatal.

Seu soco tem o poder de sessenta quilos
concentrados contra um centímetro quadrado
disparado a centenas de quilômetros por hora
com a aceleração de um petardo.

Seu golpe é tão poderoso
que os aquários que tentam contê-la se quebram
que a água ao redor de sua pata se evapora
e mesmo que ele não acerte diretamente sua vítima
a onda de impacto que causa é suficiente para derrotá-la.

Portanto tema, crustáceo do Pacífico,
não importa quão rija sua carapaça.
Dentre as pedras do oceano
espreita esta carnívora ameaça!

E não adianta nem mesmo se camuflar:
se a tamarutaca o quiser, ela o encontrará
pois além de poderosa como uma tormenta
a tamarutaca consegue ver os tons do medo

do infravermelho ao ultravioleta.



quarta-feira, 22 de maio de 2013

Por quê corre o tempo

Sabe aquela impressão de que o tempo era bem mais demorado quando a gente era criança? Os meses eram longos; anos, então... Praticamente uma vida.
Eu pensava que a impressão de que o tempo passou a correr mais rápido se devia ao acúmulo relativo de vida. Isto é: quando eu tinha oito anos de idade, um ano correspondia a mais ou menos 15% de tudo o que tinha vivido (dos dois primeiros anos eu não me lembro de nada). Com 22 anos, por outro lado, um ano é só mais um ano. 5% do que já foi vivido até então, e a tendência e ficar cada vez mais irrelevante.
Outra resposta que considerava como possível, embora muito além da minha compreensão, seria uma eventual aceleração da dimensão temporal, que refletiria a aceleração da expansão do próprio universo. Segundo esta hipótese, a partir de determinado ponto o tempo vai começar a desacelerar, até que pare, ou até que comece a regredir rumo ao início de tudo, a partir de quando começaria nova expansão. Curioso, porém improvável e dificilmente demonstravel.
Mais plausível é a hipótese de que antigamente achávamos que os dias demoravam mais porque aprendíamos mais coisas ao longo deles. Víamos coisas diferentes todos os dias. Ou seja, vivenciávamos mais a realidade.
À medida em que nossos dias ficam mais e mais monótonos, sempre acordando apenas para empurrar a pedra de Sísifo morro acima, voltar para casa e dormir... Então os dias passam rápido por serem todos iguais.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Poema que não vale um título


Em busca de pena saiu de um banheiro o poeta com a toalha
enrolada no corpo afobado patético com creme de barba na cara.
Tal como as ninfas, que nos rios e lagos fazem a sua morada
Vão as ideias pelos ralos porque as musas também gostam de água.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Distópico Dinâmico

Fiz algo talvez um pouco interessante, não pelo conteúdo, mas pela forma.
Trata-se de um pequeno texto com algumas mentiras. Na tela seguinte partes do texto desaparecem, revelando a verdade (?). Por fim, para ficar mais claro, reorganizo as partes que sobraram.

Queria ter feito um Gif animado, mas me faltou perícia. O que consegui foi uma apresentação de slides. Quem quiser ver, tem que fazer o download.

Segue o link:
https://docs.google.com/file/d/0B19MaTn5RGGZbjZzWTVmb1IxcDQ/edit?usp=sharing

quarta-feira, 13 de março de 2013

Herói sombrio

Batman é um torturador; já pensou sobre isto?
Diz-se o melhor detetive do mundo, mas quem já viu seus quadrinhos, video-games e até desenhos animados sabe que a linha mestra de investigação do Homem Morcego é pendurar capangas de cabeça para baixo e aterroriza-los até que digam o que ele quer saber. Nunca mata, é verdade. Não costuma sequer deixar graves ferimentos. Mas isso não faz dele menos torturador. Faz dele um torturador eficiente.
Minha intenção não é demonizar de forma moralista o personagem, muito menos defender a tortura. Não vejo mal em existirem na ficção heróis sem limites (morais, físicos, materiais) como Batman, Jack Bauer ou Zorro. O que entendo ser importante é que nós, os consumidores dessa cultura, tenhamos consciência do que recebemos.
O fato de um torturador contumaz ser um dos mais populares personagens do mundo, em especial entre crianças, diz o quê sobre nossa sociedade?

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Uma lição sobre cinema e francês

Sou um idiota.
Sempre pensei que o termo nouvelle vague correspondesse a algo como "novela vaga". Para mim, o termo remetia a "um jeito lânguido" de se contar uma história. A câmera trêmula perseguindo os atores de perto me lembravam um observador embrigado, um olhar vago.
De repente tive algo como uma revelação ao contrário; uma epifania frustrante. Dei-me conta que se trata simplesmente de "nova onda". O mesmo que dizer "vanguarda" ou, no caso do Brasil, "cinema novo".
Nada mais que isso...