O que carrega mais
sentimento: a união ou o conflito?
Pouca coisa é tão
poética quanto um embate. E não posso pensar em um contexto em que
um embate é posto de forma tão clara quanto em uma luta de boxe. Um
homem (ou mulher - vide Menina de ouro) frente a outro; regras simples, objetivo simples.
Por isso mesmo o boxe
tem tamanha recorrência na literatura. Neste esporte, o homem
moderno, educado para conter seus ímpetos, agir segundo a razão,
coloca-se em uma rara situação em que há igualdade e liberdade
para combater. No boxe não há armas, não há hierarquia. Há só a
força bruta, a habilidade e, principalmente, a vontade.
Tão estreita é a
relação entre literatura e pugilismo que tornou-se lugar comum a
metáfora de Julio Cortázar que compara o bom romance à vitória por pontos, enquanto o
conto deve arrebatar o leitor por nocaute.
Alguns de meus contos preferidos, de meus escritores preferidos, dizem respeito a este tema. Ernest Hemingway (vide o excelente conto Cinquenta mil) e Rubem Fonseca (O desempenho, no livro Lúcia MacCartney) são exemplos de narradores do boxe no século XX. Há ainda Arthur Conan Doyle, em um contexto diferente: seus pugilistas são cavalheiros do século XIX. Mesmo quando são da classe operária, são cavalheiros.
Acabou de ser editada no Brasil uma coletânea chamada Nocaute, com cinco contos de boxe por Jack London. A se ver.
