sábado, 27 de dezembro de 2014

Dizem-me para entrar na água
Mas eu gosto de sentir o calor.

Na antiguidade os sábios buscavam conhecimento nas estrelas. Delas vieram cosmogonias, astrologia, astronomia, cartografia, astrofísica...
Hoje estamos tão iluminados que nem conseguimos mais vê-las.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Senhor F.

Na época em que eu trabalhava em uma agência da Receita Federal em Capivari aparecia por lá um contador, ou um empregado de escritório de contabilidade, que vinha sempre ser atendido de óculos escuros. Um clássico Ray-Ban modelo aviador. Era um senhor magro, calvo, com os cabelos que lhe restavam nas laterais e atrás da cabeça pretos. Diria que com uns sessenta anos. Lembrava um pouco a figura de Cartola, mas branco. Meus colegas mais antigos na agência o chamavam de Senhor F. (um sobrenome que podia ser tanto italiano quanto espanhol, peço licença para omití-lo). Não sei se ele reparou que eu estranhava quando ele vinha ser atendido de óculos escuros, mas um dia o Senhor F. veio a minha mesa sem eles. Ao invés disso, usava um óculos de grau com apenas uma lente. "A lente quebrou, ainda não deu pra mandar consertar." Quando precisava ler algum documento voltava a colocar o raiban.
Um dia um colega dele foi até a Agência e, antes de dar entrada em um processo de rotina, comentou "Você soube? O senhor F. faleceu. Não tinha ido ao trabalho ontem; hoje a filha foi visitá-lo e o encontrou morto".
Por muito tempo pensei em como tinha sido triste o fim daquele homem. Vivia sozinho, já próximo da velhice. Tinha aprendido seu ofício em uma época em que não existia computadores e agora era um empregado mal pago, praticamente um office boy, contratado por caridade. Mas por outro lado, talvez ao menos ele tenha tido a satisfação de não ter feito ninguém sofrer com ele. Morreu sozinho com seus problemas.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014