Contarei um dos raros momentos fantásticos da minha vida (sou um afortunado, há quem não tenha nenhum). Aconteceu uma vez em que eu viajava com meu pai de Monte Mor, onde ele trabalhava, de volta para nossa casa em Rafard. Eu tinha passado o dia com ele, acompanhando-o. Devia ter uns oito anos de idade. Estava anoitecendo e eu olhava pela janela do carro a escuridão do caminho, as estrelas, tentando entender o mundo.
Em determinado momento deixei de prestar atenção na noite e passei a ver o meu próprio reflexo, semitransparente no vidro do carro. Fiquei alguns momentos fitando as duas bolotas pretas dos meus olhos e, de repente, vislumbrei no lugar do rosto de menino as feições de um homem. Adivinhei de alguma forma que o rosto era meu, só que mais velho. Lembro-me de ter ficado satisfeito por não ser muito feio, e de que segundo aquela profecia eu teria barba – coisa que, para os meninos, é como ter um carro.
Durante anos eu às vezes me lembrava desse episódio, e hoje fico muito feliz por não ter afastado do evento o que ele teve de absurdo, como às vezes fazem os adultos com as lembranças da infância. Fico feliz porque hoje eu me lembrei deste fato enquanto viajo de Capivari para Monte Mor, no crepúsculo, e porque estou com a barba por fazer. Sou exatamente a pessoa que vi.
Se fixar meus olhos em meu reflexo na janela do ônibus talvez consiga ver um menino bochechudo. Ou, talvez, veja como estarei daqui a vinte anos.
quarta-feira, 13 de julho de 2011
Quando se atinge idade suficiente para se ter um passado
Lembro de maneira vaga dos ambientes de trabalho do início dos anos noventa. Eu era criança, mas às vezes ia a alguma imobiliária, ou na prefeitura. A proibição, e mais importante, a perda do hábito de fumar em escritórios e repartições transformaram estes ambientes de uma forma que só quem presenciou aquela época pode entender.
O alcatrão deixava os ambientes sempre com um tom amarelado, como o bigode de um fumante (alguns homens usavam bigode). Como fotografias em sépia. As lâmpadas também eram amarelas, o que colaborava.
Aqui e ali, normalmente em órgãos estatais, ainda se veem cinzeiros públicos. Gosto daqueles cilíndricos, normalmente verdes, com uma boca frontal para o lixo e o topo de metal jamais totalmente limpo. Relíquias quase inúteis, hoje resignam-se a coletar chicletes e papéis de bala. Lembrar daqueles escritórios faz-me pensar: que cheiro tem os escritórios de hoje? Acho que seremos lembrados (nós, porque nosso tempo é nós também) não pelo cheiro, mas pela luz fluorescente branca (que causa câncer de pele) e pelas grandes quantidades de papel (poluição inútil).
Este tipo de coisa, o ambiente, é tão inerente ao nosso cotidiano que só percebemos o efeito deles sobre nós quando não está mais lá.
E máquinas de escrever. Havia máquinas de escrever.
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domingo, 26 de junho de 2011
Siga o manual
No ano de 2050 inventou-se um dispositivo que, com total ausência de fios e sem importar a distância, gravava tudo o que o seu possuidor pensava.
Como é praxe com os inventos revolucionários, houve entusiasmo e esperança. Nunca mais se perderia as ideias que vinham em momentos inoportunos, como durante o banho, escovando os dentes, ou dirigindo. Bastava, quando houvesse disposição para se organizar as ideias, acessar o amplo recipiente de armazenamento e resgatar a rima, o desenho, a fórmula que, por ser inusitada, jamais viria à mente pelo raciocínio ordinário. O ser humano enfim conseguira domar a centelha da inspiração. Os avanços científicos e culturais dali para frente seriam exponenciais.
Ocorreu, contudo, que o invento foi duplamente fracassado. Primeiro porque, após um furor inicial de investimentos em ideias tiradas da máquina, começou a se observar que as soluções que vêm num lampejo, apesar de atraentes à primeira vista, costumam falhar quando colocadas em prática.
Segundo porque o uso do aparelho causou uma onda de graves transtornos psicológicos em seus usuários, que viam registrados todos os medonhos pensamentos que antes passavam desapercebidos por suas cabeças ao longo do dia. Os piores casos foram de sujeitos que imprudentemente acessavam o conteúdo de seus sonhos, contrariando recomendação expressa do manual de instruções.
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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Resposta de Machado de Assis a Danuza Leão
Crônica publicada no jornal Gazeta de Notícias, em 19 de maio de 1888.
Bons dias!
Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário fôr, que tôda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.
Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.
No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado.
Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e pediu à ilustre assembléia que correspondesse ao ato que acabava de publicar, brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.
No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:
- Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que...
- Oh! meu senhô! fico.
- ...Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho dêste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos...
- Artura não qué dizê nada, não, senhô...
- Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.
- Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.
Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Êle continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.
Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí pra cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe bêsta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas tôdas que êle recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.
O meu plano está feito; quero ser deputado,e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a tôda a gente que dêle teve notícia; que êsse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposições) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.
Boas noites.
Texto extraído do livro
Obra Completa, Vol III. Machado de Assis. 3ª edição. José Aguilar, Rio de Janeiro. 1973. p. 489 - 491.
Bons dias!
Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário fôr, que tôda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.
Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.
No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado.
Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e pediu à ilustre assembléia que correspondesse ao ato que acabava de publicar, brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.
No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:
- Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que...
- Oh! meu senhô! fico.
- ...Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho dêste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos...
- Artura não qué dizê nada, não, senhô...
- Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.
- Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.
Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Êle continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.
Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio; daí pra cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe bêsta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas tôdas que êle recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.
O meu plano está feito; quero ser deputado,e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a tôda a gente que dêle teve notícia; que êsse escravo tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposições) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.
Boas noites.
Texto extraído do livro
Obra Completa, Vol III. Machado de Assis. 3ª edição. José Aguilar, Rio de Janeiro. 1973. p. 489 - 491.
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