quarta-feira, 13 de julho de 2011

Quando se atinge idade suficiente para se ter um passado

Lembro de maneira vaga dos ambientes de trabalho do início dos anos noventa. Eu era criança, mas às vezes ia a alguma imobiliária, ou na prefeitura. A proibição, e mais importante, a perda do hábito de fumar em escritórios e repartições transformaram estes ambientes de uma forma que só quem presenciou aquela época pode entender.


O alcatrão deixava os ambientes sempre com um tom amarelado, como o bigode de um fumante (alguns homens usavam bigode). Como fotografias em sépia. As lâmpadas também eram amarelas, o que colaborava.

Aqui e ali, normalmente em órgãos estatais, ainda se veem cinzeiros públicos. Gosto daqueles cilíndricos, normalmente verdes, com uma boca frontal para o lixo e o topo de metal jamais totalmente limpo. Relíquias quase inúteis, hoje resignam-se a coletar chicletes e papéis de bala. Lembrar daqueles escritórios faz-me pensar: que cheiro tem os escritórios de hoje? Acho que seremos lembrados (nós, porque nosso tempo é nós também) não pelo cheiro, mas pela luz fluorescente branca (que causa câncer de pele) e pelas grandes quantidades de papel (poluição inútil).


Este tipo de coisa, o ambiente, é tão inerente ao nosso cotidiano que só percebemos o efeito deles sobre nós quando não está mais lá.


E máquinas de escrever. Havia máquinas de escrever.

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