Lembro de maneira vaga dos ambientes de trabalho do início dos anos noventa. Eu era criança, mas às vezes ia a alguma imobiliária, ou na prefeitura. A proibição, e mais importante, a perda do hábito de fumar em escritórios e repartições transformaram estes ambientes de uma forma que só quem presenciou aquela época pode entender.
O alcatrão deixava os ambientes sempre com um tom amarelado, como o bigode de um fumante (alguns homens usavam bigode). Como fotografias em sépia. As lâmpadas também eram amarelas, o que colaborava.
Aqui e ali, normalmente em órgãos estatais, ainda se veem cinzeiros públicos. Gosto daqueles cilíndricos, normalmente verdes, com uma boca frontal para o lixo e o topo de metal jamais totalmente limpo. Relíquias quase inúteis, hoje resignam-se a coletar chicletes e papéis de bala. Lembrar daqueles escritórios faz-me pensar: que cheiro tem os escritórios de hoje? Acho que seremos lembrados (nós, porque nosso tempo é nós também) não pelo cheiro, mas pela luz fluorescente branca (que causa câncer de pele) e pelas grandes quantidades de papel (poluição inútil).
Este tipo de coisa, o ambiente, é tão inerente ao nosso cotidiano que só percebemos o efeito deles sobre nós quando não está mais lá.
E máquinas de escrever. Havia máquinas de escrever.
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