quarta-feira, 13 de julho de 2011

Anotação feita em viagem, julho de 2011.

Contarei um dos raros momentos fantásticos da minha vida (sou um afortunado, há quem não tenha nenhum). Aconteceu uma vez em que eu viajava com meu pai de Monte Mor, onde ele trabalhava, de volta para nossa casa em Rafard. Eu tinha passado o dia com ele, acompanhando-o. Devia ter uns oito anos de idade. Estava anoitecendo e eu olhava pela janela do carro a escuridão do caminho, as estrelas, tentando entender o mundo.
Em determinado momento deixei de prestar atenção na noite e passei a ver o meu próprio reflexo, semitransparente no vidro do carro. Fiquei alguns momentos fitando as duas bolotas pretas dos meus olhos e, de repente, vislumbrei no lugar do rosto de menino as feições de um homem. Adivinhei de alguma forma que o rosto era meu, só que mais velho. Lembro-me de ter ficado satisfeito por não ser muito feio, e de que segundo aquela profecia eu teria barba – coisa que, para os meninos, é como ter um carro.
Durante anos eu às vezes me lembrava desse episódio, e hoje fico muito feliz por não ter afastado do evento o que ele teve de absurdo, como às vezes fazem os adultos com as lembranças da infância. Fico feliz porque hoje eu me lembrei deste fato enquanto viajo de Capivari para Monte Mor, no crepúsculo, e porque estou com a barba por fazer. Sou exatamente a pessoa que vi.
Se fixar meus olhos em meu reflexo na janela do ônibus talvez consiga ver um menino bochechudo. Ou, talvez, veja como estarei daqui a vinte anos.

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