No ano de 2050 inventou-se um dispositivo que, com total ausência de fios e sem importar a distância, gravava tudo o que o seu possuidor pensava.
Como é praxe com os inventos revolucionários, houve entusiasmo e esperança. Nunca mais se perderia as ideias que vinham em momentos inoportunos, como durante o banho, escovando os dentes, ou dirigindo. Bastava, quando houvesse disposição para se organizar as ideias, acessar o amplo recipiente de armazenamento e resgatar a rima, o desenho, a fórmula que, por ser inusitada, jamais viria à mente pelo raciocínio ordinário. O ser humano enfim conseguira domar a centelha da inspiração. Os avanços científicos e culturais dali para frente seriam exponenciais.
Ocorreu, contudo, que o invento foi duplamente fracassado. Primeiro porque, após um furor inicial de investimentos em ideias tiradas da máquina, começou a se observar que as soluções que vêm num lampejo, apesar de atraentes à primeira vista, costumam falhar quando colocadas em prática.
Segundo porque o uso do aparelho causou uma onda de graves transtornos psicológicos em seus usuários, que viam registrados todos os medonhos pensamentos que antes passavam desapercebidos por suas cabeças ao longo do dia. Os piores casos foram de sujeitos que imprudentemente acessavam o conteúdo de seus sonhos, contrariando recomendação expressa do manual de instruções.
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