Se o Brasil fosse uma obra de ficção, e se eu fosse o autor, alguém muito ruim seria o vencedor das próximas eleições.
Não que eu queira o mal do país, mas reviravoltas, decepções e afrontas seriam mais interessantes do que simplesmente ver o castelinho de Lula - que já não tem uma estrutura muito firme - ruir lentamente, pedra por pedra.
Lula criou uma imagem no ideário popular, não há como se negar. E não foi fácil fazê-lo. Deveu-se a um processo que começou com ele metalúrgico, fundando o PT, falando grosso e firme (hoje continua falando grosso, mas com muito mais manha). Teve sua vida privada exposta em um debate político. Foi abrilhantada pelo fato de o mauricinho que o venceu nas urnas ter sido expulso do poder. Em seguida, perdeu novamente. Desta vez para um acadêmico que, devido a uma política econômica liberal além da conta (e também ao contexto da economia mundial, é verdade), terminou seus dois mandados com o país com medo do desemprego.
Após tantas derrotas, Lula viu-se como tendo percorrido o "caminho do herói". Tornou-se menos rústico; mais palatável ao gosto do grande público. Este, vendo-o novamente tentar eleger-se, decidiu que já era hora. E a hora foi bem aproveitada.
A larga aprovação do Governo Lula é, também, uma aprovação do brasileiro sobre si mesmo. O patrício afirma que o governo vai bem porque o país vai bem. E o país vai bem, do ponto de vista deste brasileiro, porque afinal de contas sua vida vai bem. Não ótimo, não uma Holanda, mas vai bem, como um domingo em que não se viaja para a praia, mas também não se trabalha.
Se o país fosse uma obra de ficção, seria hora de se quebrar este status quo, que tem cara de fim de filme. Se o vencedor for um mero sucessor menor de Lula, certamente os problemas vão ser sentidos mais do que os ganhos (quem terá a cara limpa o suficiente para dizer "eu não sabia de nada" e sair de bem com a opinião pública?). O domingo irá se acabando, e ainda que o Brasil não mude tanto, a percepção do brasileiro irá mudar. E haverá insatisfação.
Já se ganhar alguém que inicie um governo entreguista, enchendo as estradas de pedágios, reduzindo os benefícios sociais a bem dos lucros dos empresários (Serra), ou ainda alguém que nas eleições faça cara de bonzinho, de Lula melhorado, para revelar-se nada mais do que o presidente mais corrupto da história, a ponto de a corrupção afetar a economia (Ciro)... Aí então se fará o cenário necessário para o retorno triunfal de Lula, feito Rock Balboa. Ou, quem sabe, de algum Che Guevara do século XXI.
Pode ser que Lula também veja a derrota do PT em 2010 como necessária para a manutenção do seu plano de poder. Necessária, até, para que o nome de Luís Inácio possa entrar para história com uma grandiosidade maior. Lula é vaidoso: ninguém chega a Presidente da República sem este atributo.
Talvez por isso tenha escolhido a dedo uma candidata tão tecnicamente, objetivamente, correta; e tão pouco elegível.
Sem querer me meter na sua obra literária, um crime hediondo seria, mas e se a Marina Silva ganhasse???
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