Percebo que há certa diferença entre as artes gráficas.
Há aquelas que causam impacto estético independente de seu contexto histórico e aquelas que têm mais interesse histórico do que potencial para arrebatar o espectador.
Quando em Bruxelas, tive muito interesse para ver A morte de Marat, porque era um quadro que estava em meus livros de história e me causava certo impacto. Hoje, alguns meses após a viagem, estava vendo algumas fotos e vi que tirei foto da plaqueta do museu que contava a história da pintura, mas não da pintura em si.
Depois de traduzir o texto (que estava em francês e flamengo), pesquisei no google pela imagem.
O site de pesquisas retornou várias respostas do famoso quadro, é claro. Cada uma um pouco diferente da outra, dependendo da iluminação, do equipamento com que foi fotografada, da época. E não consegui, a partir daquelas fotos, me lembrar de qual foi a impressão que a pintura causou no momento em que a vi.
Não ocorre o mesmo com outros quadros, cuja lembrança que tenho deles está intrinsecamente ligada ao sentimento ao vê-los.
No MASP há um quadro de Monet de duas moças em uma canoa, e a ondulação do remo na água do lago dá a impressão de que elas inevitavelmente sairão do quadro.
No National Gallery, em Londres, a tarde ensolarada de pontilhismo de Georges Seurat iluminava e trazia uma leveza que causava grande contraste com toda a sisudez do restante do acervo.
Há, é claro, obras que trazem em si os dois aspectos: que não apenas trazem consigo a marca de seu tempo; que além de estarem inseridas no contexto histórico e que lembrem inexoravelmente este tempo, também comovem o espírito.
No Museu Latino Americano de Buenos Aires há um quadro que causou esta impressão em mim, em minha esposa e em outros conhecidos. Trata-se de Manifestación, de Antonio Berni. Lembra o Operários de nossa Tarsila, mas enquanto a obra brasileira exulta nossa formação miscigenada o argentino traz a luta por melhores condições aos trabalhadores.
Dizem que Guernica também tem este duplo efeito, mas eu não saberia dizer. Enquanto a relevância histórica, a incorporação da obra no "espírito do tempo", pode ser alcançada apenas pela informação, o "arrebatamento estético" somente pode ser integralmente gozado confrontando-se a obra pessoalmente.




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